Crítica – Estou Bem Aqui e Lembrei De Você – Grupo Bando Coletivo, por Bob Sousa no 39º Festivale

Estou Bem Aqui e Lembrei De Você - Grupo Bando Coletivo - foto paullo amarall / FCCR

39º FESTIVALE – O Festivale é um dos mais tradicionais festivais de teatro do país. E realizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em São José dos Campo/SP.

Estou Bem Aqui e Lembrei de Você - Grupo em Bando Coletivo Um breve pouso dentro de si |

Bob Sousa

É fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).
Bob Sousa

Bob Sousa

O espetáculo Estou Bem Aqui e Lembrei de Você, apresentado na 39ª edição do FestiVale, propõe uma experiência singular ao transformar a cidade em matéria poética. Criado pelo Em Bando Coletivo, o trabalho se inscreve na linguagem do áudio tour ficcional, onde o público percorre as ruas com fones de ouvido, guiado por uma narrativa que se mistura às sonoridades e paisagens urbanas. A Praça da Matriz se converte em ponto de partida e em palco vivo. O espectador, ao caminhar, atravessa camadas de tempo e memória, entrelaçando ficção e realidade em uma dramaturgia sensorial, guiados pela voz de Luma Eckert.

 

 

A construção da visualidade do espetáculo se dá justamente na ausência de imagens concretas. A narrativa visual emerge da escuta. O som convoca o olhar. Cada esquina, fachada ou sombra se torna parte da encenação, revelando uma estética da presença e da imaginação. O percurso pela cidade transforma o espaço cotidiano em cenário simbólico, e a palavra em lente que reposiciona o olhar sobre o urbano. Assim, a visualidade não está em um cenário montado, mas naquilo que o público vê ao ser guiado pela voz. A cidade se torna um grande dispositivo visual, onde cada elemento arquitetônico é reinterpretado pela potência do som.

 

 

O enredo, centrado na neta que refaz os passos da avó, é também uma travessia afetiva entre gerações. A dramaturgia original de João Lirio e Marcus Di Bello adquire um sentido de continuidade e homenagem, revelando uma delicada articulação entre lembrança e presença. O corpo ausente da avó se refaz na paisagem, nas vozes que ecoam, nas respirações que o público acompanha. A performance convida a um gesto de escuta atenta, em que a cidade sussurra suas próprias histórias e o passado se refaz na caminhada. A produção é de Jamili Limma, com assistência de Felippe Salve.

 

 

A cartografia em movimento proposta ultrapassa a ideia de mapa fixo e geografia estável. O percurso traçado pela dramaturgia sonora se transforma a cada passo do público, que redesenha o território com o corpo e com a escuta. Essa cartografia sensível não busca orientar, mas desorientar, abrindo brechas para que o espaço urbano seja percebido como um organismo vivo e mutável. A caminhada se torna um gesto de escrita efêmera sobre o chão da cidade, uma forma de reinscrever memórias

e afetos no espaço coletivo. Cada trajeto é único, pois depende do ritmo, do olhar e da imaginação de quem o percorre, convertendo a experiência em uma geografia poética que se desenha no tempo do presente.

 

 

A construção poética se ancora na delicada percepção de que as pessoas vão, mas as memórias ficam. O espetáculo transforma essa ideia em experiência sensorial, fazendo da ausência uma forma de presença. As vozes que ecoam nos fones de ouvido reconstituem rastros de vidas que atravessaram as mesmas ruas, como se a cidade guardasse em suas paredes e calçadas as lembranças daqueles que partiram. A poética do trabalho reside nesse entrelaçamento entre o efêmero e o permanente, em que a passagem do tempo é percebida não como perda, mas como continuidade. A memória, nesse contexto, não é estática, mas viva, capaz de se reatualizar a cada escuta, a cada passo, a cada olhar que reconhece no espaço urbano a persistência de quem já não está.

 

 

Estou Bem Aqui e Lembrei de Você dialoga profundamente com as reflexões de Michel de Certeau em A Invenção do Cotidiano, especialmente na ideia de que caminhar é um ato poético e político de reescrita do espaço. Assim como Certeau vê o pedestre como um narrador que inscreve histórias na cidade com seus passos, o espetáculo propõe uma dramaturgia que se constrói na relação entre o corpo e o território. O público, ao percorrer as ruas guiado pela escuta, reinventa a paisagem urbana e transforma trajetos comuns em percursos de imaginação e memória. Essa aproximação revela que o cotidiano, muitas vezes invisível, é também campo de criação e resistência. A performance evidencia que habitar a cidade é uma forma de narrá-la, e que cada passo pode ser um gesto de invenção, capaz de transformar o espaço vivido em experiência estética e afetiva.

 

 

A obra se constrói dentro de cada pessoa que a vivencia. O espetáculo não oferece uma narrativa fechada, mas um campo aberto de sensações, lembranças e imagens que se formam na interioridade do ouvinte. À medida que o público caminha, o som desperta memórias pessoais que se misturam à ficção, criando uma dramaturgia íntima e invisível. A cidade deixa de ser apenas cenário e se torna extensão do corpo e da escuta, enquanto a voz narradora atua como um fio que costura o dentro e o fora, o vivido e o imaginado. Cada espectador compõe sua própria versão do espetáculo, fazendo da experiência uma criação compartilhada e, ao mesmo tempo, profundamente individual. Parte dessas experiências foram articuladas pelos participantes ao final da caminhada.

 

A experiência ganha uma dimensão ainda mais íntima quando coincide com o dia do meu aniversário, como um gesto de pouso em mim mesmo. Caminhar pela cidade nesse dia, guiado por vozes que falam de memória, tempo e ausência, é como revisitar minha própria trajetória em silêncio. O espetáculo se torna espelho e rito, um convite a celebrar não o que passa, mas o que permanece. A cada esquina, a escuta revela fragmentos de vida que se entrelaçam às lembranças pessoais, e o percurso transforma-se em uma travessia interior. Há algo de rito de passagem nessa experiência, como se o ato de caminhar e ouvir fosse também o de renascer em meio à cidade que acolhe, guarda e devolve ecos da própria existência.

 

 

Estou Bem Aqui e Lembrei de Você é uma experiência sobre o tempo, o espaço e a memória. Um convite a caminhar com os ouvidos e ver com a lembrança. A cidade, nesse percurso, deixa de ser cenário para se tornar personagem, presença viva que acolhe a ficção e devolve ao público um espelho de si mesmo.

 

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Crítica – VENENO – Grupo: Teatro Estúdio por Rodrigo Morais Leite no 39º Festivale

VENENO - Grupo: Teatro Estúdio – Produções Artísticas - foto paullo amarall /FCCR

39º FESTIVALE – O Festivale é um dos mais tradicionais festivais de teatro do país. E realizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em São José dos Campos/SP.

VENENO - Grupo: Teatro Estúdio: Dentro da linguagem dramática, Veneno é um depurado espetáculo acerca do luto |

Rodrigo Morais Leite

É jornalista, historiador e crítico teatral. Atua como professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (ETUFBA) e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA.
Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite

O luto é um assunto recorrente em diversas manifestações artísticas, dentre as quais se incluiriam o cinema, a literatura e o teatro. Embora existam inúmeras formas de luto, relacionadas ao tipo de perda que a ele associa (um primo, um amigo ou uma tia, por exemplo), muito provavelmente a mais tematizada, por ser a mais dolorosa, é a perda de um/a filho/a. O motivo é simples: ao contrário da morte de um pai ou de uma mãe, algo que, bem ou mal, faz parte do ciclo da vida, a morte de um/a filho/a é antinatural, por romper esse ciclo.

Com efeito, superar a partida de alguém tão próximo, e que ainda por cima estaria destinado a enterrar seus progenitores quando a velhice deles chegasse, é quase impossível, senão impossível. É disso de que se trata o espetáculo Veneno, produção do Teatro Estúdio de São Paulo dirigida por Eric Lenate e protagonizada por Cléo de Páris e Alexandre Galindo. O texto encenado, um drama em quatro atos produzido pela dramaturga holandesa Lot Vekemans, jamais havia sido montado no Brasil, e vem revelar, para nós, uma escritora de talento, cujo conhecimento esbarra no fato de escrever em uma língua pouco divulgada fora das fronteiras de sua terra natal.

O enredo não é difícil de resumir: dez anos após a morte do filho, atropelado por um motorista imprudente, os pais se encontram novamente, numa sala contígua a um cemitério, com a missão de remover de lá os restos mortais do menino, devido à contaminação do solo onde está seu jazigo. A separação do casal foi uma iniciativa do marido, que, abalado pelo acontecimento, abandonou a esposa para iniciar uma nova vida na França, onde passou a residir e onde está em vias de formar uma nova família (a segunda esposa está grávida).

Uma vez confinados no local, pois ninguém aparece para lhes dar satisfação, o casal inicia uma densa (e dura) conversa, na qual uma série de mágoas de parte a parte são reveladas, relacionadas, principalmente, ao modo como cada um procurou superar seu próprio luto. Aos poucos, começa a aparecer, por intermédio dos diálogos, uma discreta mas perceptível oposição: enquanto ele, de algum modo, conseguiu dar continuidade à sua vida, ao se estabelecer em outro país e se dispor a um novo matrimônio, ela, por seu turno, estagnou, incapaz de se livrar do estupor advindo do trauma.

Assim resumida, pode parecer, à primeira vista, que se está diante de um drama com influências do dramaturgo sueco August Strindberg (1849- 1912), em que as personagens se digladiariam até que uma delas, quase sempre o homem, destruísse psicologicamente a outra, impondo sua força diante da fragilidade da oponente. Mas Lot Vekemans, ainda bem, não é Strindberg, e não é nada disso que acontece, pelo contrário: à medida que o diálogo avança, o atrito inicial vai dando lugar, aos poucos, a uma convergência de sentimentos, a ponto de no final, irmanados pela dor comum, os dois de certo modo se reconciliarem.

Valendo-se ainda de uma outra comparação, agora em relação ao cinema, se pode afirmar que Veneno seria o negativo do filme Anticristo, do cineasta dinamarquês Lars Von Trier. Tanto em uma como eu outra obra têm-se um casal afetado pelo falecimento do filho. A diferença é que, no filme, ao invés de se separarem, os consortes se isolam do mundo, para a partir daí iniciarem uma sádica jornada expiatória. Curiosamente, as duas obras são de 2009.

Em Veneno, não há expiação, pois se sabe de antemão que ela não é alcançável. A dor pela morte do menino, bem como o aborto causado por ela à relação do casal, são irreparáveis. Mas há companheirismo, solidariedade, expresso na noção de que o padecimento, se não pode ser eliminado, pode ao menos ser aplacado pela reciprocidade afetiva.

Do ponto de vista cênico, Veneno é uma obra que assume uma proposta minimalista: a cenografia é composta, basicamente, de uma mesa posicionada no centro do palco, algumas cadeiras em volta e um bebedouro no canto. Nada além disso. O espetáculo também abdica de utilizar luz teatral,

 

pois a iluminação é feita com lâmpadas tubulares comuns, instaladas acima da mesa.

Abdicando de qualquer aparato cênico, Veneno só poderia mesmo se sustentar no trabalho dos atores que interpretam o malfadado casal. Verdadeiro bálsamo para os olhos e ouvidos do público, nele reside a beleza da obra, fascinante pela precisão e pelo requinte das atuações. Dentro de uma atmosfera que costuma menosprezar o teatro dramático, pejorativamente apontado como “teatrão”, impressiona o preparo do elenco ao lidar com essa forma de expressão teatral calcada na força da palavra, nas pausas, nos ditos e subentendidos previstos no texto. Pelo seu aspecto dramático, e por reduzir os meios expressivos ao mínimo, Veneno poderia ser classificado como um ótimo exemplar daquilo que se costuma chamar “teatro de câmara”.

Por todos esses motivos, não surpreende que o público presente no Centro de Estudos Teatrais (CET), onde ocorreu a apresentação, se emocionasse tanto com a obra. Embora o assunto, por si só, tenha potencial para comover o mais insensível dos seres humanos, é o seu tratamento, a forma como ele é desenvolvido dramatúrgica e cenicamente, o verdadeiro responsável pelo seu impacto, que fazem de Veneno um trabalho de excelência.

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Crítica – Espetáculo 2 Mundos, por Bob Sousa no 39º Festivale

2 Mundos, da Companhia Lumiato Teatro de Formas Animadas - foto paullo amarall / FCCR

39º FESTIVALE – O Festivale é um dos mais tradicionais festivais de teatro do país. E realizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em São José dos Campo/SP.

2 Mundos, da Companhia Lumiato Teatro de Formas Animadas Iluminando o pensamento crítico pela força da visualidade |

Bob Sousa

É fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).
Bob Sousa

Bob Sousa

O espetáculo 2 Mundos, da Companhia Lumiato Teatro de Formas Animadas, apresentado no Cine Santana durante a 39ª Edição do FestiVale, reafirma a potência do teatro de sombras como linguagem contemporânea capaz de discutir temas complexos e universais. A montagem transforma o espaço cênico em um território simbólico, onde o confronto entre culturas ganha corpo por meio da luz, da forma e da ausência de palavras.

 

Inspirado em processos históricos de colonização, o espetáculo ultrapassa a dimensão factual para tocar o plano sensível e humano do encontro entre civilizações. A visualidade construída pela Cia. Lumiato é rigorosa e ao mesmo tempo poética, composta por figuras geométricas que remetem à estética cubista. Essa escolha estética fragmenta o olhar do espectador, permitindo que a multiplicidade de perspectivas revele a impossibilidade de uma narrativa única sobre o passado e o presente.

 

A experiência sensorial proposta pelo grupo rompe a barreira tradicional entre público e cena. Ao convidar o espectador a adentrar o espaço performativo, 2 Mundos o coloca dentro de uma atmosfera em que o som, as sombras e a luz constroem camadas de significação. O corpo dos atuadores se dilui entre figuras projetadas e volumes translúcidos, criando uma dramaturgia visual que se sustenta no ritmo e na composição imagética.

 

O público é convidado a ocupar o palco, tornando-se parte da cena e da atmosfera criada pelas sombras. Duas grandes telas delimitam o espaço e representam os dois mundos em questão: de um lado, a Europa; de outro, as Américas. Entre elas, uma terceira tela funciona como passagem, metáfora visual do mar que conecta e separa ao mesmo tempo, lembrando que o oceano foi tanto rota de descobertas quanto de violências e deslocamentos. Essa disposição espacial cria uma imersão sensorial que amplia o sentido de travessia e pertencimento.

 

A tridimensionalidade da estética cubista, incorporada à encenação de 2 Mundos, dialoga com a bidimensionalidade das imagens projetadas e produz um jogo visual que desafia a percepção do espectador. As figuras geométricas, fragmentadas e sobrepostas, criam uma ilusão de profundidade que tensiona o plano das telas, fazendo com que as sombras pareçam emergir e se dissolver no espaço. Essa fricção entre o volume sugerido e a superfície projetada amplia a experiência sensorial do teatro de sombras, deslocando-o do mero plano bidimensional para um campo expandido de visualidade. O resultado é uma composição que transforma luz e forma em matéria viva, instaurando uma poética do movimento entre o real e o imaginado.

As influências de Pablo Picasso e Tarsila do Amaral atravessam a visualidade de 2 Mundos e dialogam diretamente com a proposta estética da Cia. Lumiato. De Picasso, o espetáculo herda a fragmentação cubista, que rompe com a perspectiva linear e permite observar simultaneamente múltiplos ângulos de uma mesma realidade. Essa multiplicidade visual reflete o confronto entre culturas e o entrelaçamento de tempos históricos, transformando a cena em um espaço de tensão e reconstrução simbólica. De Tarsila, emerge o olhar latino-americano que ressignifica o modernismo europeu, inserindo cores, formas e imaginários que traduzem a experiência colonial e suas heranças. Essa combinação entre o cubismo europeu e a brasilidade de Tarsila cria uma poética híbrida, em que as sombras projetadas assumem o papel de telas vivas, misturando ancestralidade e modernidade, denúncia e encantamento.

 

A ausência de fala não representa um vazio, mas sim um gesto de escuta. As sombras tornam-se vozes, e as formas em movimento evocam a memória coletiva de um mundo marcado por conquistas e violências. Nesse silêncio, a narrativa se faz universal, permitindo que o público reconheça em si mesmo os dilemas éticos e emocionais que atravessam a humanidade em tempos de conflito.

 

A técnica e a sincronicidade de Soledad Garcia e Thiago Bresani são elementos fundamentais na construção da linguagem visual de 2 Mundos. O domínio da manipulação das sombras revela um rigor coreográfico que transcende a simples execução técnica, convertendo o gesto em expressão dramática. Cada movimento é milimetricamente calculado, mas ainda assim carrega uma organicidade que faz das figuras projetadas presenças pulsantes. A harmonia entre os dois intérpretes cria uma coreografia silenciosa em que corpo, luz e objeto se fundem, sustentando a fluidez narrativa do espetáculo. Essa precisão compartilhada transforma a manipulação em poesia visual, consolidando o trabalho da dupla como uma verdadeira dança de sombras que respira e se move em uníssono.

 

A linguagem cinematográfica permeia a encenação de 2 Mundos, ampliando o alcance da narrativa visual e criando uma temporalidade própria dentro do espaço teatral. Os enquadramentos precisos, as transições entre planos e o uso do foco e do desfoque remetem à gramática do cinema, transformando o olhar do espectador em uma lente que se desloca entre o macro e o micro. A alternância entre cenas de grande escala e composições mais íntimas confere ritmo e tensão à dramaturgia das sombras, como se cada imagem fosse um fotograma em movimento. Essa aproximação entre o cinema e o teatro de sombras produz uma experiência híbrida, em que o tempo é editado pela luz e o espaço se torna tela, fundindo o sensorial e o imagético em uma mesma respiração poética.

 

Na obra, a relação entre luz e sombra assume um papel de descolonização do pensamento, rompendo com as hierarquias tradicionais do olhar ocidental que opõem clareza e obscuridade. A Cia. Lumiato transforma a sombra, muitas vezes

 

associada à ausência, em potência criadora e espaço de revelação. A luz deixa de ser instrumento de dominação visual e passa a coexistir com a escuridão, instaurando um campo de ambiguidade onde múltiplas narrativas podem emergir. Nesse jogo, o espetáculo propõe uma revisão sensorial da história, convidando o público a enxergar não apenas o que é iluminado, mas também o que foi silenciado. A estética das sombras torna-se, assim, uma prática simbólica de resistência, capaz de iluminar as zonas esquecidas da memória coletiva e questionar os modos coloniais de ver e representar o mundo.

 

Em 2 Mundos, o teatro de sombras não é apenas técnica, mas linguagem poética e política. O espetáculo convida à reflexão sobre a alteridade e o poder, sobre os limites do olhar e sobre a necessidade de reconhecer o outro como espelho. Assim, a Cia. Lumiato constrói uma obra que une rigor estético e profundidade simbólica, reafirmando a força da visualidade como forma de pensar o mundo e suas contradições.

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Crítica – Ópera Febril por Rodrigo Morais Leite no 39º Festivale

Ópera Febril - Grupo: Cia Do Trailler / Teatro Em Movimento - foto paullo amarall / FCCR

39º FESTIVALE – O Festivale é um dos mais tradicionais festivais de teatro do país. E realizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em São José dos Campos /SP.

Ópera Febril, da Cia. do Trailler é obra que propõe um difícil equilíbrio entre razão e sensibilidade. |

Rodrigo Morais Leite

É jornalista, historiador e crítico teatral. Atua como professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (ETUFBA) e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA.
Rodrigo Morais Leite

Rodrigo Morais Leite

Ópera Febril, da Cia. do Trailler, é obra que propõe um difícil equilíbrio entre razão e sensibilidade.

 

Rodrigo Morais Leite 1

O espetáculo Ópera Febril, da Cia. do Trailler – Teatro em Movimento, dá continuidade à pesquisa empreendida pelo grupo desde 2019, ano de estreia do ótimo Experimento: Desterro.Doc, atrelada à linguagem do teatro documentário (ou documental, como preferem alguns). Trata-se de uma linguagem, como a própria expressão revela, na qual a obra se constrói a partir da seleção e exposição em cena de fontes documentais autênticas, expediente que lhe confere um lastro direto e objetivo com uma determinada realidade.

As raízes mais remotas dessa vertente teatral, interessada em pulverizar os limites que separam ficção e realidade, encontram-se no movimento naturalista europeu, que vicejou na segunda metade do século retrasado com repercussão em muitos países não-europeus, incluindo o Brasil. Sua conformação “definitiva”, contudo, é normalmente atribuída ao encenador alemão Erwin Piscator, que na primeira metade do século XX procurou articular em seus espetáculos um amplo aparato documental, quase sempre exposto ao público por meio de projeções cinematográficas.

A estética teatral burilada pela Cia. do Trailler nos últimos anos é herdeira assumida dos procedimentos piscatorianos, embora adaptados ao tempo presente e em conformidade com certos parâmetros do teatro contemporâneo. Para o desenvolvimento dessa pesquisa, foi firmada uma profícua parceria entre o coletivo e o diretor Marcelo Soler, um especialista na seara do teatro documentário tanto do ponto de vista prático, enquanto artista e produtor de obras circunscritas ao gênero, como do ponto de vista teórico, enquanto autor de trabalhos acadêmicos a ele relacionados.

De Piscator, Desterro.Doc e Ópera Febril têm em comum, antes de mais nada, o seu substrato épico, ligado à origem etimológica da palavra, que diz

1 É jornalista, historiador e crítico teatral. Atua como professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (ETUFBA) e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA.

respeito àquilo que é exterior ao homem, ou seja, às relações do ser humano em sociedade, segundo aspectos políticos, econômicos e sociais. Se, em Desterro.Doc, o debate abordava a política de separação de corpos – valendo-se, para isso, da história do antigo Sanatório Vicentina Aranha – em Ópera Febril ele se desloca para a precarização das relações de trabalho, a partir da investigação empreendida pelo grupo em torno da Tecelagem Parahyba, antiga fábrica de cobertores existente em São José dos Campos entre as décadas de 1920 e 1990.

Dessa mesma matriz estética o grupo se afasta ao adotar certos princípios de composição radicalmente antidramáticos, responsáveis por levá-lo à fronteira de um teatro performático. Exemplos de tais princípios encontram-se no fato de o elenco surgir em cena despersonificado, eximindo- se de interpretar quaisquer personagens, ou dos espetáculos dispensarem o recurso da fabulação, no sentido de delinearem, mesmo que de modo atípico, uma narrativa a ser acompanha pelo público.

No caso específico de Ópera Febril – o tema, afinal, desta reflexão – tem- se um elenco formado de cinco atuadores/as-musicistas que se esmera, no desenrolar das cenas, na execução de inúmeras funções, que vão do canto à contrarregragem. Com o propósito de lhe conferir um feitio coral, todos/as utilizam o mesmo figurino, que remete ao vestuário utilizado pelos trabalhadores da indústria têxtil.

A roteirização do espetáculo prevê uma trajetória bem demarcada, na qual são apresentadas ao público duas formas cruéis de exploração, sendo uma o desdobramento da outra. A primeira delas, simbolizada pela Tecelagem Parahyba, seria a exploração “tradicional” dentro da ordem do capitalismo industrial, que permitia ao patronato obter um controle extremo sobre os corpos à sua disposição nas manufaturas. Em tal regime prevalecia a expropriação direta e manifesta do trabalho alheio, com a utilização de meios coercitivos igualmente diretos e manifestos.

Para ilustrar essa primeira forma de exploração, a trupe se vale de uma série de documentos encontrados no Arquivo Público do Município de São José dos Campos, projetados no fundo da cena e que revelam os procedimentos aplicados pela extinta tecelagem com vistas a exterminar qualquer tipo de oposição dos trabalhadores àquela estrutura opressora.


Já a segunda forma de exploração, a contemporânea, consequência direta de um tipo de capitalismo pós-industrial, comparece com força na obra quando esta volta sua atenção ao passado mais recente da política brasileira, em especial para o governo de Michel Temer (2016-2018), responsável por implementar uma reforma trabalhista afinada aos interesses burgueses do setor terciário. Seria esse o momento de consolidação da chamada “uberização” das relações de trabalho, em que até mesmo a noção dual embutida no termo “trabalhador” é combatida, em favor de palavras inofensivas mais apropriadas à classe dominante, tais como “colaborador” e, principalmente, “empreendedor”.

A exploração, que antes era explícita, torna-se implícita. O patronato, que antes possuía um rosto, agora deixa de tê-lo. E o trabalhador, isolado, vendendo sua força de trabalho como um prestador de serviços, sem saber direito de onde vêm as forças que o oprimem, resigna-se na crença alienante de que sua autonomia o levará ao sucesso profissional. O triunfo máximo do individualismo sobre o coletivismo.

Nessa trajetória que vai de um a outro regime trabalhista, inúmeros são os recursos cênicos utilizados em Ópera Febril, como projeções pré-gravadas ou gravadas in loco, coros sonantes e dissonantes, testemunhos pessoais dos/as atuadores/as (sempre relacionados aos aspectos profissionais de suas vidas), máscaras, objetos, áudios de whatsapp revelados por meio da técnica do verbatim… enfim, uma gama muito variada de artifícios que, por mais heterotópicos que sejam, perfazem, do início ao fim, uma profunda coerência lógico-discursiva ao serem mobilizados.

E é exatamente aí, nessa coerência, que se revela uma das virtudes do espetáculo, relacionada à sua capacidade de penetrar, com argúcia, em um aspecto fundamental de nossas relações sociais, valendo-se, para isso, de uma cena compósita e de uma estética híbrida, que se poderia designar, pelos motivos expostos mais atrás, de épico-performática. A ordem em que os termos estão colocados não é aleatória.

Mesmo contendo elementos que remetem a um teatro, em tese, mais formalista, o núcleo de Ópera Febril é, sobretudo, épico, por apresentar um conteúdo claro e preciso (ainda que sem fábula) e por seu caráter didático- pedagógico, no melhor sentido da expressão, que se articula ao legado

brechtiano na defesa de uma arte a serviço do esclarecimento. Dentro dessa concepção, a obra da Cia. do Trailler se justifica plenamente.

Contudo, se a exposição de dados estatísticos e informações históricas, desde que utilizados com inteligência e honestidade intelectual, podem servir ao propósito de esclarecer o/a espectador/a, nem sempre é possível, com tais recursos, emocioná-lo/a. Isso se dá por um motivo simples: apesar de fundamentais, eles são, no fundo, meras abstrações, portanto incapazes de gerar algum tipo de identificação emocional. E a emoção, é bom lembrar, não está excluída do teatro épico outrora propugnado por Bertolt Brecht. O problema, conforme o próprio teatrólogo salientava em seus textos teóricos e em sua prática cênica, é que a emoção esteja a serviço da razão, elevada, portanto, a atos de conhecimento.

Em Ópera Febril, como também em Experimento: Desterro.Doc, a estratégia de que se valem os/as roteiristas para atingir esse objetivo é individualizar o assunto sob análise, encarnando-o em figuras reais cujas trajetórias personificariam ou a catástrofe da “uberização”, no primeiro caso, ou a catástrofe da “sanitarização”, no segundo. No tocante à “uberização”, coube a Thiago de Jesus Dias exercer essa função, motoboy massacrado por uma jornada diária de 12 horas de trabalho que o leva a morrer de AVC; no tocante à “sanitarização”, à personagem de Izaura, esposa que acompanha o marido tuberculoso ao Sanatório Vicentina Aranha e é por ele abandonada lá. São     nessas              oportunidades,         em         que                    uma empatia      racionalmente conduzida se interpõe no interior das obras, que o público sente “na pele” as dores e tristezas pessoais relacionadas aos problemas escrutinados. E são também nelas que os dois espetáculos arrematam o projeto embutido em seus respectivos escopos, de esclarecer sem jamais perder de vista a noção

segundo a qual teatro é, antes de tudo, divertimento. Razão e sensibilidade.

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Festivale publica críticas de espetáculos teatrais

Bob Souza e Rodrigo Morais Leite - Criticos do 39º Festivale

Com textos escritos por Rodrigo Morais e Bob Sousa, sobre  das peças que acontecem no 39º Festivale em São José dos Campos até o dia 1º de novembro.

Rodrigo Morais Leite é historiador, jornalista e crítico de teatro. Possui mestrado, doutorado e pós-doutorado em artes cênicas, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica e historiografia teatrais. Atua como professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e do programa de pós-graduação em Artes Cênicas da UFBA.

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp, onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de teatro da APCA e de artes visuais do prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do Teatro.
fonte: FCCR

39º Festivale – Abertura

Peça: NÃO ME ENTREGO, NÃO! Ator Othon Bastos - foto Paullo Amarall / FCCR

         A abertura do Festivale acontece hoje, dia 23 de outubro, com o monólogo “Não me entrego, não!”, com o ator Othon Bastos, aos 92 anos de vida e contabilizando mais de 70 anos de carreira. Com 50 apresentações de cinco estados brasileiros, as apresentações seguirão até 1° de novembro, em diversos espaços da cidade.
Mais informações sobre a programação e também sobre ingressos nos link  do site da Fundação Cultural Cassiano Ricardo. Confira mais abaixo o catalogo da programação

Informações e programação site FCCR

Ingressos na plataforma eventbrite