
Peça: Um Truque Novo Prum Cachorro Velho – Klaus Arrependimentos Artísticos – foto Paullo Amarall / FCCR 40º FESTIVALE –...
40º FESTIVALE – O Festivale é um dos mais tradicionais festivais de teatro do país. É realizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em São José dos Campos/SP. As criticas fazem parte da programação do festival. Abaixo redes social da FCCR.
Certamente mais um espetáculo de sucesso, Um Truque Novo Prum Cachorro Velho, de Klaus Arrependimentos Artísticos, de São José dos Campos/SP, fez sua apresentação na 40º edição do Festivale – Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba. Presença muito pertinente na programação, representando uma das produções da região que ganham o mundo. Além disso, relaciona-se a uma característica reconhecida acerca da importância dos festivais de teatro, aspecto formativo em processo, tanto para artistas como para o público. Nesse sentido, a produção de artistas como Adriana Marques, Márcio Douglas e Renato de Souza Junior demonstram a continuidade consequente de um processo de pesquisa da linguagem cênica, fundamental para a contemporaneidade como reafirmação do teatro como espaço de expressão, criação e reflexões humanas.
O Palhaço Klaus, de Marcio Douglas, tem seu público fiel e seguidores, que reconhecem a coerência artística de um tipo de produção original no âmbito da palhaçada ou palhaçaria. A comédia Um Truque Novo Prum Cachorro Velho é a segunda investida de Marcio Douglas: Klaus, em conjunto com Adriana Marques: Irmã Gorete e Renato de Souza Junior: Medusa, depois de Show de Variedades Ilícitas.
Dessa vez, o Palhaço Klaus tenta criar um novo trabalho ao lado da Fome e da Morte, mas tudo fede ao passado: truques repetidos, boletos vencidos, a dor do tempo e o silêncio do telefone que parou de tocar. Dialogando com a realidade de artistas após a quarta década de vida, o assunto diz respeito a toda e qualquer pessoa nessa condição, lidando com as incertezas do futuro e de como envelhecer com dignidade.
Entretanto, este é apenas um argumento disparador para a construção de uma teatralidade cômica com base grotesca em suas vertentes expressiva e filosófica. A concepção, dramaturgia e direção de Marcio Douglas propõem uma encenação que entrelaça a dramaturgia de texto do roteiro ao diálogo com a tradição cômica e a teatralidade grotesca.
A iluminação e operação de luz de Bianca Burgomeister já convidam desde o início da obra para essa imersão niilista, na qual a penumbra revela a surpresa da aparição de Irmã Gorete como Morte e Medusa como Fome, figuras fantasmagóricas a acompanhar o artista Klaus, que tenta sobreviver criativamente em meio a essa perseguição atávica, ao considerarmos a existência de artistas populares sobre a Terra desde que se tem notícias da humanidade. Um combo de metalinguagem temática, estrutural e estilística caracterizam o espetáculo, que apresenta como tema a luta pela sobrevivência de artistas ao longo da história, contexto atual da precarização do trabalho, faixa etária e mundo empreendedor. Do ponto de vista estrutural, Um Truque Novo… faz referência a espetáculos anteriores, como Animo Festas, revisitando a abordagem niilista que consagrou o Palhaço Klaus e sua iconoclastia ácida. Essas referências são intercaladas com uma terapia, cujas sessões se dão com base na incomunicabilidade dos seres, portanto do universo tartamudeante da absurdidade. Também a impossibilidade de sucesso é explicitada pelas insistentes tentativas de jobs buscados por Klaus, Gorete e Medusa e a exposição dos limites das personagenspalhaças situadas socialmente. Uma cabeça gigante de personagem estadunidense, como o Pateta, aparece como símbolo da imposição de uma forma hegemônica de fazer teatro, e também de comédias, como a forma citada logo no início, dos stand-ups. Já a perspectiva estilística, é também metalinguística por evocar a teatralização cômica, pelo viés mordaz, do fracasso e do grotesco, remontando todo um legado nessa forma de expressão que inverte as hierarquias e carnavaliza os processos sociais autoritários e idealistas.
Aqui as contradições são expostas, utilizando a linguagem grotesca como espelho deformante, que expõe ao público suas possíveis incongruências sociais. No concernente à linguagem do palhaço como metalinguagem, o tratamento existencial-niilista é adotado, em que os figurinos dos palhaços Medusa, Klaus e palhaça Irmã Goreti, representados por Adriana, Marcio e Renato, esbanjam um diferente senso de pulsão de vida ou mesmo a energia sexual transbordante, para o prazer de expressar e atuar no palco e provocar diferentes sensações, percepções e reflexões no público.
O visual do espetáculo traz ainda recursos teatrais cenográficos e funcionais, como telefone, máquina de escrever, a cortina central que esconde e revela as mágicas de aparecimento e transformação dos palhaços em Fome e Morte, com figurinos muito elaborados e belos, de acordo com a fantasmagoria necessária à revisitação do passado e o distanciamento crítico que advém de toda essa teatralidade do espetáculo, permitindo a imersão lúdica na obra. Para tanto, também a trilha e músicas pensadas por Marcio Douglas embalam a narrativa, compondo o espetáculo com uma variação temática, estrutural e estilística para as já conhecidas peripécias de Klaus e seus comparsas Gorete e Medusa.
Assim, a peça alia o conforto de conhecer artistas e personagens em cena, com o estranhamento necessário ao riso e ao divertimento. Cumpre portanto, importante função social da arte teatral, ao sairmos do espetáculo enxergando o mundo com suas deformações, sem a menor pretensão de consertá-lo, mas sim de transformar nossas visões para uma forma mais carnavalizada de amar e mudar as coisas.

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